Teórico que previu o Bóson de Higgs diz que ‘é muito agradável ter razão’

Atualizado em 06/07/2012 14h56

Peter Higgs concedeu coletiva de imprensa na Escócia nesta sexta (6).
Na quarta, cientistas nucleares anunciaram descoberta de partícula inédita.

Do G1, com agências internacionais*

Infográfico Bóson de Higgs (Foto: Arte/G1)

Depois de quase 50 anos defendendo a existência de uma nova partícula subatômica, apelidada de “a partícula de Deus” — já que teria dado origem à massa de todas as outras partículas –, o cientista britânico Peter Higgs, pai desta teoria, disse nesta sexta-feira (6) que “é bom ter razão de vez em quando”.

Na última quarta-feira (4), cientistas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês) anunciaram a observação de uma partícula subatômica inédita até então. Eles veem fortes indícios de que se trate do “bóson de Higgs”, única partícula prevista pela teoria vigente da física que ainda não tinha sido detectada em laboratórios, e que vinha sendo perseguida ao longo das últimas décadas.

Pela teoria, o bóson de Higgs teria dado origem à massa de todas as outras partículas. Se sua existência for confirmada, portanto, é um passo importante da ciência na compreensão da origem do Universo. Se ele não existisse, a teoria vigente deixaria de fazer sentido, e seria preciso elaborar novos modelos para substituí-la.

“É muito agradável ter razão de vez em quando (…) foi uma longa espera”, admitiu o físico durante a coletiva.

E o Nobel vai para…?
Higgs concedeu uma coletiva de imprensa na Universidade de Edimburgo, na Escócia. Conhecido por sua modéstia, o professor aposentado de 83 anos deu pouca importância aos comentários de cientistas famosos de que seria o favorito para vencer o Prêmio Nobel. “Não sei, não tenho amigos no Comitê Nobel”, comentou.

Indagado sobre o que vai fazer no futuro, Higgs disse que quer simplesmente continuar com sua vida de aposentado. “O único problema, creio, é que terei de escapar da imprensa”, brincou.

Em 1964, Peter Higgs postulou a existência de uma partícula subatômica, que os físicos do Cern afirmam ter, talvez, encontrado depois de uma longa busca.

Quando teve a intuição de um “campo” que se assemelha a uma espécie de cola, onde as partículas ficariam mais ou menos presas, Higgs disse ao antigo colega Alan Walker: “Ah, que m…., eu sei como fazer!”

O físico publicou um artigo sobre sua teoria, que acabou se tornando o carro-chefe de uma escola científica para a qual vários físicos têm contribuído ao longo dos anos. Tímido e sossegado, Higgs leva uma vida pacata em Edimburgo, onde deu aulas por muitos anos.

‘Partícula de Deus’
O “bóson de Higgs” ganhou o apelido de “partícula de Deus” em 1993, depois que o físico Leon Lederman, ganhador do Nobel de 1988, publicou o livro “The God Particle” (literalmente “a partícula de Deus”, em inglês), voltado a explicar toda a teoria em volta do bóson de Higgs para o público leigo. Ainda não há edição desse livro em português.

A nova partícula tem características “consistentes” com o bóson de Higgs, mas os físicos ainda não afirmam com certeza que se trate da “partícula de Deus”. Para isso, eles vão coletar novos dados para observar se a partícula se comporta com as características esperadas do bóson de Higgs.

As conclusões foram baseadas em dados obtidos no Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), acelerador de partículas construído pelo Cern ao longo de 27 quilômetros debaixo da terra, na fronteira entre a França e a Suíça.

Essa máquina, considerada a mais poderosa do mundo, foi construída especificamente para estudos de física de partículas, e a descoberta desta quarta é a mais importante que já foi feita lá até o momento.

Mas, e agora?
A descoberta foi confirmada por especialistas do CMS e do Atlas, dois grupos de pesquisa independentes que fazem uso do LHC. Apesar de usarem o mesmo acelerador de partículas, as duas colaborações científicas trabalham com detectores diferentes e seus resultados são paralelos. Os resultados antecipados ainda serão publicados em revistas científicas.

O físico Peter Higgs (Foto: David Moir/Reuters)O físico Peter Higgs defende há quase 50 anos a existência da ‘partícula de Deus’ (Foto: David Moir/Reuters)

Os cientistas medem a massa das partículas como se fosse energia. Isso porque toda massa tem uma equivalência em energia. Se você calcula uma, tem o valor das duas. A unidade de medida usada é o gigaelétron-volt, ou “GeV”.

No anúncio, o CMS disse que observou um “novo bóson com a massa de 125,3 GeV” – com margem de erro de 0,6 GeV para mais ou para menos – “em 4,9 sigmas de significância”. Esses “sigmas” medem a probabilidade dos resultados obtidos. O valor de 4,9 sigmas representa uma chance menor que um em 1 milhão de que os resultados sejam mera coincidência. Por isso, os cientistas consideram esse número como uma confirmação da descoberta.

O próximo passo dos cientistas é testar os vários decaimentos decorrentes dessa partícula. Se os resultados continuarem sendo coerentes com o Modelo Padrão, será confirmado que ela é mesmo o bóson de Higgs.

*Com informações da France Presse

fonte:

http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/07/teorico-que-previu-particula-de-deus-diz-que-e-muito-agradavel-ter-razao.html

“Boson de Higgs”

Depois de 3 anos e US$ 10 bilhões, o maior acelerador de partículas do mundo está próximo de seu grande resultado: comprovar a existência de uma partícula que não tem nenhuma utilidade prática. E isso é ótimo. Saiba por quê

por Rodrigo Rezende

(Revista Superinteressante)

“Cientistas podem ter encontrado a partícula de Deus.” Foi com essa frase estampada em manchetes pelo mundo que o maior experimento científico do planeta recuperou parte de sua reputação. Lançado com estardalhaço na mídia internacional, o acelerador de partículas LHC estreou com o pé esquerdo, em 2008. Devido a uma falha de soldagem, a máquina de US$ 10 bilhões ficou de molho por mais de um ano. Mas agora a pista de 27 km enterrada sob a fronteira entre a França e a Suíça está produzindo resultados que podem justificar o investimento. Por conta deles, uma das ideias mais importantes da física pode ser comprovada: o bóson de Higgs, mais conhecido por partícula de Deus.

A partícula celestial é uma popstar da ciência. Procurada há mais de 40 anos, chegou a ser chamada de “o Santo Graal” da física. Mas a fama veio mesmo quando o cientista Leon Lederman resolveu escrever um livro sobre ela. A intenção de Lederman não tinha nada a ver com canonizar a partícula idealizada por Petter Higgs em 1966. Muito pelo contrário. Tanto que o título que Lederman propôs para o livro foi The Goddamn Particle (A Partícula Amaldiçoada). Mas os editores acharam melhor transformar a revolta de Lederman com a dificuldade em encontrar a partícula em algo mais comercial. O livro saiu como The God Particle (A Partícula de Deus). E o apelido pegou. Agora “bóson de Higgs” está para “partícula de Deus” assim como Edson Arantes do Nascimento está para Pelé.

Para entender o que ela tem de divino, responda: qual é a diferença entre você e um raio de luz? “Nenhuma” seria a resposta há 13,7 bilhões de anos, no instante em que o Universo nasceu. Nesse estágio embrionário do Cosmos, a grandeza física a que chamamos massa ainda não existia. Nada tinha peso. A matéria que forma o seu corpo hoje era só uma coleção de partículas subatômicas se movendo à velocidade da luz. E aí é que vem a bênção. Certas partículas, os bósons de Higgs, estavam espalhadas por cada milímetro do Universo. Uma hora elas se uniram e, num processo similar ao vapor d’água se transformando em água líquida, e formaram um “oceano” invisível – o Oceano de Higgs. Para algumas das outras partículas que vagavam por aí não fez diferença, caso dos fótons, que passavam (e ainda passam) batidos por esse oceano. Para outras, fez toda. Caso dos quarks (as que formam basicamente todo o seu corpo). Do ponto de vista delas, o Oceano de Higgs era (e ainda é) como um óleo denso. E à força que os quarks fazem para atravessar esse óleo nós damos o nome de massa. Em suma: sem os bósons de Higgs, a matéria não existiria – já que “matéria” é tudo o que tem massa. E você seria algo tão sem substância quanto uma onda de rádio. Chato.

Essa é a teoria de Peter Higgs. Uma teoria complexa, com pinta de ficção científica, mas que está a caminho de sair do mundo das ideias. Não é à toa que os físicos do CERN estejam em festa só com os sinais de que ela talvez se comprove.

E como os cientistas fazem para encontrar esses sinais? Eles pegam pedaços de átomos, aceleram loucamente e provocam colisões frontais entre eles. Das pancadas saem explosões com intensidades similares à do Big Bang, mas confinadas a um espaço ínfimo. No meio, da força dessas explosões deveriam aparecer bósons de Higgs soltos, assim como havia há 13,7 bilhões de anos, segundo a teoria. Bom, os cientistas vasculham dados dessas batidas para ver o que aparece de fato. É um trabalho parecido com procurar agulhas em palheiros. No caso do bóson de Higgs, agora, o que eles encontraram foi o brilho da agulha. Não é pouco: imagine que provar algo na física seja como jogar na Megasena. Por essa comparação, os dados encontrados no LHC são tão bons quanto acertar uma quadra.

A questão é: valeu a pena investir bilhões só para tentar comprovar uma teoria que não tem nenhuma aplicação prática? Quem responde “não” costuma pensar que o estudo dos problemas teóricos fundamentais da ciência não tem utilidade prática. Mas foi de coisas sem “utilidade” que surgiu o mundo que a gente conhece. A relatividade de Einstein, por exemplo, possibilitou o GPS. E o mesmo instituto do acelerador de partículas foi um dos reponsáveis pela criação da internet. O maior argumento a favor do LHC, enfim, é justamente a imprevisibilidade de resultados práticos que podem sair da ciência pura. Nesse sentido, a busca pela partícula de Deus não deixa de ser uma aposta na magia. Na magia divinatória da ciência.

fonte:

http://super.abril.com.br/ciencia/particula-deus-677736.shtml