Gleiser: partícula mais rápida que a luz é ‘muito improvável’

 

Marcelo Gleiser :

‘Aposto dez dólares que em duas semanas eles vão descobrir o erro’, diz o professor de física e astronomia do Darthmouth College, nos Estados Unidos

 

Laboratório do Cern, perto de Genebra

O CERN, onde aconteceu o experimento: Marcelo Gleiser acredita que os cientistas “devem ter deixado passar algo errado”

Conhecido por seus livros de divulgação científica, o físico Marcelo Gleiser, professor do Darthmouth College, nos Estados Unidos, recebeu com ceticismo o anúncio feito por cientistas do CERN de que neutrinos haviam superado a velocidade da luz, o que vai contra um dos pilares da física moderna. “Aposto dez dólares que em duas semanas eles vão descobrir o erro”, afirmou. Em entrevista ao site de VEJA, ele adiantou os possíveis problemas com o experimento (veja lista). Mas não descartou a possibilidade de a experiência estar de fato correta: “Grandes revolução já aconteceram com pequenas variações.”

Qual sua impressão imediata? Acho que vão encontrar um erro sistemático. É muito pouco provável que esse experimento detecte uma violação tão flagrante da Teoria da Relatividade Restrita (postulada por Albert Einstein). Eles estão dizendo que é muito simples – que basta dividir a distância pela velocidade -, mas não é assim. A maior imprecisão é no processo gerador dos neutrinos. Quando eles realmente aparecem? Ninguém sabe dizer ao certo. Estou apostando dez dólares que daqui a duas semanas vão descobrir o erro.

Não está claro o processo de criação de um neutrino? Você precisa saber quando começa a corrida. Esse início ainda não é preciso. A física da geração desses neutrinos não é tão bem compreendida assim.

Mas e se os cientistas do CERN estiverem certos? Significa que a velocidade da luz não é o limite máximo da velocidade da natureza e uma das consequências interessantes é quanto à causalidade. Um efeito precisa, necessariamente, ter uma causa anterior. Existe uma ordem natural das coisas: primeiro a causa, depois o efeito. Essa ordem depende da velocidade da luz. Como uma causa não pode ir mais rápida que a velocidade da luz, em principio você pode viajar para o passado se essa regra fosse violada. É interessante notar que, se o neutrino fizer isso, eles são como criaturas que vêm do futuro.

Como assim? A velocidade da luz tem a ver com a velocidade máxima que a informação pode atingir. Todas as informações viajam, no máximo, na velocidade da luz. Se tem algo mais rápido que isso, a informação chega antes dos processo que utilizamos para obter informação. Por exemplo: você me vê entrando numa sala. A luz bate em mim, você me detecta. Se eu tivesse emanando neutrinos e você pudesse percebê-los, você me veria antes de entrar na sala.

Se for confirmado, o que muda? No máximo vai ser aberto um subcapítulo para acomodar esse tipo de efeito. Continuo, no entanto, achando pouco provável. A diferença entre o neutrino e a velocidade da luz é 10-5. Um centésimo de milionésimo. Esse equipe de cientistas é muito cuidadosa, mas eles mesmos acham que tem alguma coisa que passou despercebida. Eles testaram todos os possíveis erros sistemáticos, porém talvez algo tenha escapado. É interessante isso estar acontecendo. É importante porque tem um efeito misterioso. Ciência adora mistério. Quanto mais crise melhor. É bom que surjam enigmas desse tipo. Grandes revolução já aconteceram com pequenas variações.

Problemas em potencial com o experimento

Marcelo Gleiser explica o que pode ter dado errado com a experiência do CERN

Atraso de informação entre os detectores

“Apesar da análise ser boa, ela pode ter problemas. A partícula viaja e bate na parede do detector. Ele manda um sinal para um contador que, por sua vez, manda o recado para um computador. Cada um desses processos tem um delay, um atraso. Existe um erro intrínseco. Eles podem achar que previram o erro, mas não é totalmente certo que conseguiram. Em condições ideais, eles tinham que fazer uma verdadeira corrida: apontar um neutrino e um fóton e ver se realmente o neutrino está chegando mais rápido. Mas não dá para fazer isso porque os neutrinos viajam dentro da terra e os fótons não. A condição ideal nunca vai acontecer. Talvez na Lua, com um detector.”

Variações na crosta terrestre

“No artigo publicado nesta quinta-feira, os cientistas do CERN deixam claro que analisaram variações na crosta terrestre porque a Terra não é estática, e isso gera variações na distância entre os laboratórios. Eles usaram GPS para monitorar como a superfície da Terra varia e essa precisão é de cem nanossegundos. Eles estão cientes, por exemplo, que terremotos alteram o eixo da Terra e, consequentemente, poderiam afetar os resultados. Mas pode haver a influência de outras variações na crosta que não ainda entendemos.”

Incerteza sobre o momento de criação dos neutrinos

“O momento em que o neutrino é produzido não é conhecido. Uma família de partículas leva um determinado tempo para se transformar em neutrinos, mas os resultados são estatísticos. Os cientistas usam uma média para descobrir o tempo a partir de quando eles foram criados e enviados até a Itália. Apesar de terem dito que tomaram cuidado, aí também existem possíveis problemas. Por causa do problema de momento de criação, você faz uma projeção estatística do momento da geração e da chegada. Mesmo que eles tenham detectado muitos eventos, é possível que eles sejam raros e não sejam representativos do que está acontecendo.”

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