Neutrinos podem viajar mais rápido que a luz?

Partículas podem viajar mais rápido que a velocidade da luz? A maioria dos físicos responderia com um enfático “não”, devido a amplamente aceita teoria da relatividade especial de Einstein que proíbe viagens com velocidades superiores a da luz. Mas agora, físicos trabalhando no experimento OPERA na Itália parecem ter descoberto uma tentadora evidência que pode provar que neutrinos podem ultrapassar a velocidade da luz.

A equipe responsável pelo experimento OPERA utiliza neutrinos do múon produzidos no Super Proton Synchrotron no CERN em Geneva que, após atravessarem 730km, chegam ao detector em Gran Sasso, Itália. A equipe já estudou mais de 15 mil eventos de neutrinos e descobriu que esses neutrinos viajavam a uma velocidade superior a velocidade da luz em 20 partes por milhão.

O princípio de medição utilizado é simples: os físicos sabem a distância percorrida pelos neutrinos e sabem também o tempo que essa viagem demora o que lhes fornece a velocidade dos neutrinos. Os dados utilizados foram medidos utilizando-se GPS, relógios atômicos e outros equipamentos de extrema precisão.

Essa não é a primeira vez que neutrinos foram observados ultrapassando a velocidade da luz. Em 2007, o experimento MINOS nos Estados Unidos observou esse fenômeno ocorrendo com 473 neutrinos que viajaram do Fermilab próximo a Chicago até um detector no norte de Minesota. Os físicos responsáveis pelo experimento MINOS reportaram velocidades similares às observadas no experimento OPERA, porém a incerteza do resultado no experimento MINOS era muito maior. De acordo com os pesquisadores do experimento OPERA, os cálculos que permitem a determinação da velocidade dos neutrinos, assim como os equipamentos, estão pelo menos dez vezes melhores quando comparados aos do experimento MINOS em 2007.

 

 

Possíveis erros sistemáticos?

 

Essa velocidade maior que a velocidade da luz, que as medições encontraram, apontam um acréscimo pequeníssimo, cerca de 25 partes por milhão, portanto isto faz pensar que pode haver um erro sistemático escondido e que ainda não conseguiram identificar. O experimento é bastante complexo, envolve máquinas e equipamentos que devem ser calibrados de maneira perfeita para que tudo funcione com o menor erro possível.

E, se for confirmado, isto pode ser um sinal de nova física, e não necessariamente a superação simples da velocidade da luz.

Há ainda MUITAS alternativas a investigar antes de declarar uma violação direta da relatividade restrita; e mesmo que isso seja confirmado, devemos lembrar que já existem  MUITOS resultados que são bem explicados pela teoria da relatividade (restrita ou generalizada, como quiserem).

Ainda não olhei em detalhe o preprint escrito pela equipe, mas aqui fica:
http://arxiv.org/abs/1109.4897 (clicar no link “PDF” do lado direito da página).
ESTA versão ainda não passou pelo crivo do processo de “peer review” que qualquer publicação “oficial” deve passar.

O Orador que apresentou o trabalho no CERN num colóquio 6a feira passada (23/09/11) disse que eles não estavam tomando uma posição oficial. E o próprio artigo diz no final:

 

Despite the large significance of the measurement reported here and the  stability of the 
analysis, the potentially great impact of the result motivates the continuation of  our studies in 
order to investigate possible  still unknown systematic effects that could explain the observed 
anomaly. We  deliberately  do not attempt any theoretical or phenomenological interpretation of 
the results.

 

 

Será?

Neutrinos podem ser mais velozes do que a luz, confirmam pesquisadores

23 de setembro de 2011 

Os responsáveis pelo experimento Opera confirmaram nesta sexta-feira ter constatado que os neutrinos, um tipo de partículas subatômicas, podem viajar a uma velocidade superior à da luz, algo que a física considerava impossível até agora.”As medições indicam a velocidade dos neutrinos superior à velocidade da luz”, disse Dario Autiero, membro do Instituto de Física de Lyon (França) e integrante do Opera.”Não podemos explicar os efeitos observados em termos das incertezas sistemáticas conhecidas” acrescentou Autiero durante um seminário no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), com sede em Genebra.

Cercado de grande expectativa, Autiero apresentou no seminário os resultados obtidos pelo Opera, que fez uma série de experimentos físicos para medir a oscilação dos neutrinos. Para isso, foram lançados feixes destas partículas do CERN até o laboratório de Gran Sasso (Itália), a 730 quilômetros de distância.

“Os resultados das análises realizadas indicam a chegada de neutrinos antes do tempo, assumindo como parâmetro a velocidade da luz”, explicou o físico em conclusões fundamentadas em uma ampla base de provas científicas.

“As medições se apoiaram em uma longa acumulação de estatísticas no Opera, com cerca de 16 mil operações no âmbito de uma campanha geodésica precisa e de uma série de medições calibradas feitas com técnicas diferentes e complementares”, acrescentou o cientista.

Os autores do experimento apresentaram os dados e evitaram fazer interpretações mais avançadas, dizendo somente que o resultado oferece uma série de “medições intrigantes”.

A notícia circulava há dias em grupos de cientistas e na internet. Nesta sexta-feira, o CERN pediu cautela antes de chegar a conclusões e ressaltou que são necessárias novas pesquisas.

A confirmação definitiva de que a luz não tem a máxima velocidade cósmica jogaria por terra um dos fundamentos básicos das ciências físicas e do trabalho teórico de Albert Einstein.

“Considerando as possíveis consequências do resultado, são necessárias medições independentes antes de refutá-lo ou estabelecê-lo de maneira firme”,

afirmou um comunicado do laboratório de física.

O CERN ressaltou que a possibilidade da velocidade do neutrino ser mais rápida que a da luz “não concorda com as leis da natureza”, consideradas atualmente como certas, mas reconheceu que a ciência avança “derrubando os paradigmas estabelecidos”.

“As fortes limitações que surgem destas observações fazem com que seja improvável interpretar os resultados do Opera como uma modificação da teoria de Einstein”, afirmou o CERN, que insistiu na necessidade de buscar novas medições.

Físicos mostram ceticismo quanto a experiência que detectou neutrinos viajando mais rápido que a luz

A matéria abaixo, publicada originalmente  no site do Jornal  O Globo demonstra que por enquanto os físicos realmente estão desconfiados.

Talvez exista algum erro na experiência ou na interpretação dos dados que detectou neutrinos viajando a velocidades maiores que a velocidade da luz- até então impossíveis segundo a Teoria da Relatividade de Einstein !

 

Físicos mostram ceticismo quanto a experiência que detectou neutrinos viajando mais rápido que a luz

Plantão | Publicada em 28/09/2011 às 14h36m

Cesar Baima (cesar.baima@oglobo.com.br)

RIO – A divulgação na semana passada de um experimento que teria detectado neutrinos – um tipo de partícula subatômica quase sem massa e de carga elétrica nula – viajando mais rápido que a luz está movimentando físicos do mundo inteiro e enfrenta cada vez mais ceticismo quanto a seus resultados. E não é por menos: a ideia de que a velocidade da luz no vácuo é constante qualquer que seja o referencial do observador e representa o limite de velocidade do Universo é um dos principais postulados da Teoria da Relatividade Especial de Albert Einstein, que por sua vez é um dos pilares da física moderna.

Na quinta-feira passada, cientistas do laboratório subterrâneo de Gran Sasso, na Itália, anunciaram ter flagrado neutrinos lançados pelas experiências no Grande Colisor de Hádrons (LHC), acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), a cerca de 730 quilômetros de distância, rompendo o limite da velocidade da luz. Os dados foram obtidos de um detector de partículas de 1,8 mil tonelada batizado Opera. Nos últimos três anos, os pesquisadores do Opera

cronometraram a viagem de aproximadamente 16 mil neutrinos entre o Cern e o detector italiano e verificaram que, em média, eles cobriram a distância 60 nanosegundos mais rápido do que se estivessem viajando à velocidade da luz (um nanosegundo equivale a um bilionésimo de segundo), com uma margem de erro de apenas dez nanosegundos.

– Honestamente, não creio que os resultados o Opera estejam corretos. De fato, não encontrei um físico que acredite nisso – afirma Barry Blumenfeld, físico experimental da Universidade Johns Hopkins.

Blumenfeld lembra que o experimento Minos, realizado nos EUA com neutrinos lançados pelo Tevatron, acelerador de partículas do Fermilab, encontrou valores semelhantes aos do Opera há quatro anos, com a diferença de que a margem de erro era dez vezes maior que a informada pelos pesquisadores do laboratório italiano. Segundo ele, tanto o Minos quanto o T2K, experimento similar baseado no Japão, deverão melhorar seus métodos de medição para tentar replicar os resultados do Opera de forma a confirmá-los ou refutá-los de vez.

– O problema é que os resultados do Opera foram baseados em três anos de dados acumulados, então obter uma outra resposta pode levar algum tempo – pondera.

Mas e se esses neutrinos estiverem viajando mesmo mais rápido do que a luz? Como isso vai afetar as teorias da física moderna, desde a física de partículas até a cosmologia? Blumenfeld admite que será preciso reescrever muitas equações, mas isso não significa que Einstein estivesse de todo enganado.

– A Relatividade Especial é um dos pilares de tudo que sabemos e tudo que fizemos nos últimos cem anos é consistente com ela – diz. – Teríamos que reescrever muita coisa, mas isso não quer dizer que tudo que fizemos está errado, só que está incompleto.

Na mesma linha segue Vicente Pleitez, professor do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (Unesp):

– Sem dúvida precisaríamos de uma teoria tão boa quanto a de Einstein e que pudesse explicar ainda o por que deste efeito dos neutrinos e suas consequências.

Para Pleitez, é possível que estejamos observando um fenômeno novo e interpretando-o como se os neutrinos estivessem viajando mais rápido que a luz.

– Pode ser que seja um efeito quântico e não da relatividade, deixando uma possível explicação nos cânones da física quântica –

Já Blumenfeld aponta como uma das possibilidades para os neutrinos parecerem estar viajando mais rápido do que a luz é que eles estejam passando por dimensões extras, previstas pelos vários ramos das chamadas Teorias da Cordas, que tentam reconciliar a mecânica quântica com a relatividade para explicar as forças fundamentais do Universo e defendidas por cientistas famosos como o britânico Stephen Hawking.

– A violação da Relatividade Especial abre portas para muitas possibilidades – conclui Blumenfeld. – Os físicos têm falado sobre dimensões extras há muito tempo e podemos imaginar que há algo especial nos neutrinos que os permite pegar um pequeno atalho através de uma dimensão extra. Mas, antes de especular mais sobre isso, gostaria de ver uma forte confirmação de um resultado tão pouco provável.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/09/28/fisicos-mostram-ceticismo-quanto-experiencia-que-detectou-neutrinos-viajando-mais-rapido-que-luz-925461362.asp#ixzz1ZMOp7qxl
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ENEM 2011

Fonte: site do G1 (globo.com)

28/09/2011 11h41 – Atualizado em 28/09/2011 11h41

MEC começa a distribuir os cartões de confirmação do Enem 2011

Segundo o ministério, entrega será feita até 14 de outubro.
Os candidatos que não receberem o cartão poderão imprimi-lo no site.

Do G1, em São Paulo

A quatro semanas do Enem 2011, o Ministério da Educação iniciou por meio dos Correios a entrega dos cartões de confirmação aos 5,3 milhões de candidatos inscritos. O prazo para finalização da entrega é 14 de outubro e os primeiros estados a receber os cartões são Espírito Santo e Minas Gerais.


Segundo a assessoria de imprensa do Instituto Nacional de Estudos e Pequisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o procedimento está ocorrendo dentro do cronograma e não foi prejudicado pela greve dos Correios.

O cartão de confirmação indica o local da prova de cada candidato e deve ser apresentado nos dois dias do exame, em 22 e 23 de outubro. Além do cartão, estudantes devem portar um documento de identificação com foto.

De acordo com o Inep, a partir de 14 de outubro, os candidatos que não tiveram os documentos entregues em casa podem acessar o site do Enem e imprimir seu cartão.

Provas
Já a distribuição das provas aos estados foi iniciada pelo MEC no início do mês. O envio segue um esquema de segurança criado pelo Governo Federal na tentativa de evitar fraudes. As provas estão sendo guardadas em unidades regionais do Exército.

Embora o Inep não revele informações sobre o esquema, alegando que se trata de “uma questão operacional de total sigilo”, na Paraíba, por exemplo, o Exército confirmou que a maior parte das 50 caixas de provas estão guardadas nas instalações do 15º Batalhão de Infantaria Motorizado, instalado no bairro de Cruz das Armas, em João Pessoa.

Algumas caixas foram levadas para Campina Grande, onde também estão sendo guardadas em uma unidade militar.

No total, 123.820 pessoas se inscreveram para participar do exame no estado.

Será mesmo que um neutrino veloz pode desmentir Einstein?

Por MICHIO KAKU

Einstein errado? Impossível!

Essa foi a reação de físicos em todo o mundo na semana passada quando ouviram que as experiências na Suíça indicam que a teoria da relatividade de Einstein pode estar errada. Desde 1905, quando Einstein declarou que nada no universo pode se mover mais rápido que a luz, a teoria tem sido o pilar da física moderna. Aliás, a maioria de nossos eletrônicos de alta tecnologia dependem dela.

Excêntricos há anos denunciam a teoria da relatividade de Einstein, é claro. Como muitos físicos, tenho caixas cheias de monografias amadoras que me foram enviadas por pessoas alegando que Einstein estava errado. Nos anos 30, o Partido Nazista criticou a teoria de Einstein, publicando um livro chamado “Cem Autoridades Denunciam a Relatividade”. Einstein brincaria mais tarde que não é necessário ter cem intelectuais famosos para derrubar sua teoria. Tudo o que é preciso é um simples fato.

Bom, esse simples fato pode estar na forma dos experimentos mais recentes dos maiores aceleradores de partículas do mundo, que ficam no CERN, nos arredores de Genebra. Os físicos dispararam um feixe de neutrinos (partículas exóticas, parecidas com fantasmas, que conseguem penetrar até mesmo no mais denso dos materiais) da Suíça até a Itália, numa distância de 730 quilômetros. Para seu grande espanto, depois de analisar 15.000 neutrinos, descobriram que eles viajaram mais rápido que a velocidade da luz — 60 bilionésimos de segundo mais veloz, para ser preciso. Em 1 bilionésimo de segundo, um feixe de luz viaja cerca de 30 centímetros. Assim, uma diferença de 18 metros foi bem surpreendente.

Romper a barreira da luz viola o núcleo da teoria de Einstein. De acordo com a relatividade, à medida que você se aproxima da velocidade da luz, o tempo desacelera, você se torna mais pesado e fica mais plano (tudo isso já foi medido em laboratório). Mas se você viaja mais rápido que a luz, o impossível acontece. O tempo anda para trás. Você fica mais leve do que nada, e fica com espessura negativa. Como isso é ridículo, não dá para viajar mais rápido que a luz, disse Einstein.

A revelação do CERN foi eletrizante. Alguns físicos ficaram irradiantes de alegria, porque isso significa que a porta está se abrindo para uma nova física (e mais ganhadores do Prêmio Nobel). Teorias novas e ousadas precisam ser propostas para explicar o resultado. Outros começaram a suar frio, ao se dar conta de que todo o fundamento da física moderna talvez precise ser revisto. Todos os livros escolares precisam ser reescritos, todos os experimentos recalibrados.

A cosmologia, ou a própria maneira como pensamos o espaço, seria alterada para sempre. A distância até os astros e galáxias e a idade do universo (13,7 bilhões de anos) seriam colocadas em dúvida. Até mesmo a teoria da expansão do universo, a teoria do bigue-bangue e os buracos negros teriam que ser reexaminados.

Além do mais, tudo o que pensamos que entendemos sobre física nuclear precisaria ser reexaminado. Toda criança em idade escolar conhece a famosa equação de Einstein, E=MC2, em que uma pequena quantidade de massa M consegue criar uma vasta quantidade de energia E, porque a velocidade da luz C ao quadrado é um número tão enorme. Mas se C é retirada, isso significa que toda a física nuclear precisa ser recalibrada. Armas nucleares, medicina nuclear, datação radioativa, todas seriam afetadas porque todas as reações nucleares são baseadas na relação de Einstein entre matéria e energia.

Se tudo isso já não fosse o bastante, a mudança significaria que os princípios fundamentais da física estão incorretos. A física moderna é baseada em duas teorias, a da relatividade e a teoria quântica, logo a metade da física moderna teria que ser substituída por uma nova teoria. O meu próprio campo, a teoria das cordas, não é uma exceção. Pessoalmente, eu teria que revisar todas as minhas teorias porque a relatividade está embutida na teoria das cordas desde o comecinho.

Como será que essa descoberta fascinante vai se desenrolar? Como disse um dia Carl Sagan, afirmações notáveis exigem provas notáveis. Laboratórios em todo o mundo, como o Fermilab nos arredores de Chicago, irão refazer os experimentos do CERN e tentar provar ou negar seus resultados.

Minha reação instintiva, entretanto, é que esse é um falso alarme. No decorrer das décadas, houve inúmeros desafios à teoria da relatividade, e demonstrou-se que estavam todos errados. Nos anos 60, por exemplo, os físicos estavam medindo os minúsculos efeitos da gravidade sobre um feixe de luz. Num estudo, os físicos descobriram que a velocidade da luz parecia oscilar junto com a hora do dia. Surpreendentemente, a velocidade da luz subia durante o dia, e caía à noite. Depois, descobriu-se que, como o aparato era usado ao ar livre, os sensores eram afetados pela temperatura da luz do dia.

Reputações podem crescer ou diminuir. Mas, ao final, esta é uma vitória para a ciência. Nenhuma teoria é talhada em pedra. A ciência é implacável quando se trata de testar todas as teorias repetidas vezes, a qualquer tempo, em qualquer lugar. Diferentemente da religião e da política, a ciência é decidida no final pelos experimentos, feitos repetidas vezes e de várias maneiras. Não há vacas sagradas. Na ciência, cem autoridades não valem nada. O experimento vale tudo.

—Kaku,professor de física teórica na faculdade City College de Nova York, é o autor de “Física do Futuro: como a ciência vai moldar o destino do homem e nossa vidas diária até o ano 2100” (editora Doubleday, 2011).

por Prof Helma- Física Postado em Física

Gleiser: partícula mais rápida que a luz é ‘muito improvável’

 

Marcelo Gleiser :

‘Aposto dez dólares que em duas semanas eles vão descobrir o erro’, diz o professor de física e astronomia do Darthmouth College, nos Estados Unidos

 

Laboratório do Cern, perto de Genebra

O CERN, onde aconteceu o experimento: Marcelo Gleiser acredita que os cientistas “devem ter deixado passar algo errado”

Conhecido por seus livros de divulgação científica, o físico Marcelo Gleiser, professor do Darthmouth College, nos Estados Unidos, recebeu com ceticismo o anúncio feito por cientistas do CERN de que neutrinos haviam superado a velocidade da luz, o que vai contra um dos pilares da física moderna. “Aposto dez dólares que em duas semanas eles vão descobrir o erro”, afirmou. Em entrevista ao site de VEJA, ele adiantou os possíveis problemas com o experimento (veja lista). Mas não descartou a possibilidade de a experiência estar de fato correta: “Grandes revolução já aconteceram com pequenas variações.”

Qual sua impressão imediata? Acho que vão encontrar um erro sistemático. É muito pouco provável que esse experimento detecte uma violação tão flagrante da Teoria da Relatividade Restrita (postulada por Albert Einstein). Eles estão dizendo que é muito simples – que basta dividir a distância pela velocidade -, mas não é assim. A maior imprecisão é no processo gerador dos neutrinos. Quando eles realmente aparecem? Ninguém sabe dizer ao certo. Estou apostando dez dólares que daqui a duas semanas vão descobrir o erro.

Não está claro o processo de criação de um neutrino? Você precisa saber quando começa a corrida. Esse início ainda não é preciso. A física da geração desses neutrinos não é tão bem compreendida assim.

Mas e se os cientistas do CERN estiverem certos? Significa que a velocidade da luz não é o limite máximo da velocidade da natureza e uma das consequências interessantes é quanto à causalidade. Um efeito precisa, necessariamente, ter uma causa anterior. Existe uma ordem natural das coisas: primeiro a causa, depois o efeito. Essa ordem depende da velocidade da luz. Como uma causa não pode ir mais rápida que a velocidade da luz, em principio você pode viajar para o passado se essa regra fosse violada. É interessante notar que, se o neutrino fizer isso, eles são como criaturas que vêm do futuro.

Como assim? A velocidade da luz tem a ver com a velocidade máxima que a informação pode atingir. Todas as informações viajam, no máximo, na velocidade da luz. Se tem algo mais rápido que isso, a informação chega antes dos processo que utilizamos para obter informação. Por exemplo: você me vê entrando numa sala. A luz bate em mim, você me detecta. Se eu tivesse emanando neutrinos e você pudesse percebê-los, você me veria antes de entrar na sala.

Se for confirmado, o que muda? No máximo vai ser aberto um subcapítulo para acomodar esse tipo de efeito. Continuo, no entanto, achando pouco provável. A diferença entre o neutrino e a velocidade da luz é 10-5. Um centésimo de milionésimo. Esse equipe de cientistas é muito cuidadosa, mas eles mesmos acham que tem alguma coisa que passou despercebida. Eles testaram todos os possíveis erros sistemáticos, porém talvez algo tenha escapado. É interessante isso estar acontecendo. É importante porque tem um efeito misterioso. Ciência adora mistério. Quanto mais crise melhor. É bom que surjam enigmas desse tipo. Grandes revolução já aconteceram com pequenas variações.

Problemas em potencial com o experimento

Marcelo Gleiser explica o que pode ter dado errado com a experiência do CERN

Atraso de informação entre os detectores

“Apesar da análise ser boa, ela pode ter problemas. A partícula viaja e bate na parede do detector. Ele manda um sinal para um contador que, por sua vez, manda o recado para um computador. Cada um desses processos tem um delay, um atraso. Existe um erro intrínseco. Eles podem achar que previram o erro, mas não é totalmente certo que conseguiram. Em condições ideais, eles tinham que fazer uma verdadeira corrida: apontar um neutrino e um fóton e ver se realmente o neutrino está chegando mais rápido. Mas não dá para fazer isso porque os neutrinos viajam dentro da terra e os fótons não. A condição ideal nunca vai acontecer. Talvez na Lua, com um detector.”

Variações na crosta terrestre

“No artigo publicado nesta quinta-feira, os cientistas do CERN deixam claro que analisaram variações na crosta terrestre porque a Terra não é estática, e isso gera variações na distância entre os laboratórios. Eles usaram GPS para monitorar como a superfície da Terra varia e essa precisão é de cem nanossegundos. Eles estão cientes, por exemplo, que terremotos alteram o eixo da Terra e, consequentemente, poderiam afetar os resultados. Mas pode haver a influência de outras variações na crosta que não ainda entendemos.”

Incerteza sobre o momento de criação dos neutrinos

“O momento em que o neutrino é produzido não é conhecido. Uma família de partículas leva um determinado tempo para se transformar em neutrinos, mas os resultados são estatísticos. Os cientistas usam uma média para descobrir o tempo a partir de quando eles foram criados e enviados até a Itália. Apesar de terem dito que tomaram cuidado, aí também existem possíveis problemas. Por causa do problema de momento de criação, você faz uma projeção estatística do momento da geração e da chegada. Mesmo que eles tenham detectado muitos eventos, é possível que eles sejam raros e não sejam representativos do que está acontecendo.”

Descoberto planeta com dois ‘sóis’: Kepler-16b

Encontraram o planeta com dois sóis de ‘A Guerra das Estrelas`

Chama-se Kepler-16b, está a 200 anos-luz da Terra e os astrônomos excluem a possibilidade de ter vida por ser frio e gasoso; a descoberta foi publicada esta sexta-feira ( 16 de setembro de 2011) na revista Science.

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O herói Luke Skywalker observa o pôr do sol duplo de Tatooine em imagem do filme ''Guerra nas estrelas''. Foto: Reprodução

Luke Skywalker na saga cinematográfica “Guerra nas estrelas” em um Planeta com 2 sóis…

Astrônomos descobriram o primeiro caso de um planeta com dois sóis. Batizado Kepler-16b, ele orbita o centro de gravidade de um sistema estelar binário a cerca de 200 anos-luz da Terra na direção da constelação de Cygnus (Cisne).

Um hipotético habitante deste planeta veria um pôr do sol parecido com o visto em Tatooine, lar adotivo de Luke Skywalker na saga cinematográfica “Guerra nas estrelas”. Mas, diferente do astro da ficção, ele não é um mundo deserto. Com o tamanho aproximado de Saturno, o Kepler-16b provavelmente é um gigante gasoso com um núcleo sólido rochoso nada propício para abrigar vida.

– O Kepler-16b é o primeiro e único exemplo confirmado de um planeta circumbinário, isto é, que orbita não uma, mas duas estrelas – diz Josh Carter, do Instituto Harvard-Smithsonian de Astrofísica e um dos autores de artigo sobre a descoberta publicado na edição desta semana da revista “Science”. – Mais uma vez vemos que nosso Sistema Solar é apenas um exemplo da variedade de sistemas planetários que a natureza pode criar.

As duas estrelas que iluminam o Kepler-16b têm 20% e 69% da massa do Sol, completando uma órbita excêntrica em torno do centro de gravidade comum a cada 41 dias. Já o planeta descreve uma órbita quase circular em torno delas a cada 229 dias, a uma distância comparável à de Vênus. Como as estrelas são bem menores e menos brilhantes que o Sol, porém, ele é um mundo frio, com temperaturas que variam entre -70 graus e -100 graus Celsius.

O planeta foi detectado pelo observatório espacial Kepler, que encontra os astros deste tipo medindo as ínfimas reduções que eles causam no brilho de suas estrelas em seus trânsitos, isto é, quando passam entre elas e a Terra.

“Relatamos a detecção de um planeta cuja órbita rodeia um par de estrelas de pequena massa”, declara o artigo científico publicado na revista científica SCIENCE, que relata e descreve a mais recente descoberta astronómica. Os dados foram recolhidos pela sonda Kepler da NASA e revelam “trânsitos do planeta através de ambas as estrelas, para além dos eclipses mútuos” dos dois sóis, tal como surge no filme ‘A Guerra das Estrelas’.

O planeta é comparável a Saturno em massa e tamanho e viaja num movimento quase circular em tornos das duas estrelas, demorando 229 dias a dar uma volta completa. As estrelas são mais pequenas e mais quentes que o Sol, mas a distância a que se encontra faz com que a temperatura à superfície se situe entre os 73 e os 101 graus negativos. A maior brilha em tons de laranja e a mais pequena em tons de vermelho.

O exoplaneta (exterior ao nosso sistema solar) localiza-se a cerca de 200 anos-luz da Terra (um ano-luz equivale a 9,5 mil milhões de quilómetros). Os dois sóis podem nascer e posar ao mesmo tempo ou com algumas horas de diferença, consoante o dia do ano.

“A ficção científica tornou-se finalmente realidade”

“Depois de 35 anos, a ficção científica tornou-se finalmente realidade”, disse Alan Boss, astrofísico teórico da  Instituição Carnegie para a Ciência  em Washington e autor do estudo sobre o planeta. “Esperámos muito tempo para encontrar um destes”.

Até hoje, um exemplo destes só existia no universo da saga ‘A Guerra das Estrelas’, com o planeta Tatooine, coberto de desertos e povoado de espécies indígenas como os ‘homens das areias’. No entanto, o Kepler-16b é frio e gasoso, pelo que os astrónomos excluem a possibilidade de suportar vida. A sonda Kepler foi lançada em 2009 para descobrir outros planetas, com o objectivo principal de encontrar planetas parecidos com a Terra.

Laurance Doyle, o principal investigador e astrofísico do Centro Carl Sagan para o Estudo da Vida no Universo, no Instituto SETI na Califórnia, assumiu a liderança no uso do instrumento para procurar planetas que orbitassem em torno de dois sóis. “Eu aposto que há mais 2 milhões”, disse Doyle sobre os planetas com duas estrelas. “Temos dois ou três candidatos para confirmar.”